O REGRESSO DAS VIRGENS ESCANDALIZADAS



Não muito longe da minha casa de Infância vivia a menina Isabelinha com as duas afilhadas. Era uma senhora, devia ir perto dos quarenta, o que para mim era ser velha (pelo que me fazia confusão chamarem-lhe “menina”), muito sóbria, continuamente zangada com o mundo, extraordinariamente devota e que conservava a castidade, como gostava de deixar claro nos seus atos e conversas. Se o tempo o permitisse, ou seja, se não chovesse, a menina Isabelinha colocava a sua cadeira de palha cá fora onde se exibia na arte da costura; se o tempo estivesse molhado, ficava em casa, com a porta religiosamente aberta, que a sua vida era uma transparência e gostava de abordar quem passasse, para lhe falar, para ficar à conversa, uma vezes quase sussurrando – quando se tratava de mexeriquices – outras erguendo a voz e de mãos à cintura – quando se tratava de falar do mundo. O mundo era a cidade e as suas poucas-vergonhas. A menina Isabelinha era inclemente perante o pecado que grassava e denunciava-o na rede social que era então a rua. Parecia que vivíamos numa Sodoma. O cinema, onde muitos vizinhos gostavam de ir, era um local de fornicação, dizia, pior ainda do que o teatro, que conhecera quando lá fizera limpezas e que bem sabia, ai se sabia, o que se passava nos camarotes e nas casas de banho. O cinema era mais escuro, certamente porque haveria muito a esconder. Até o café com aquele ar banal, escondia tráficos e combinações que deviam fazer corar qualquer bom cristão, nem imaginam o que se passa debaixo daquelas mesas!, por isso não o frequentava, embora soubesse que algumas vizinhas o faziam, talvez por falta de aviso, porque não a queriam ouvir, que não estavam devidamente informadas e alertadas, eram ingénuas, pelo que a natural inocência que Deus nos deu corria perigo. Enfim a cidade era um horror, mas piorou ainda mais quando uns negros por ali apareceram, para trabalhar na construção civil. Construíram umas barracas com bocados de madeira e zinco nas ruínas de uma casa abandonada, num terreno lá ao fundo, já fora do nosso quarteirão. Tinham vindo de Cabo Verde e um deles, pasme-se, até trouxera família, umas criancinhas que mais pareciam, dizia a Isabelinha, uns morcegos de ranho no nariz, nada tinham daquela beleza dos nossos bebés. E assim passou ali a haver mais pobres que a pobre costureira e as duas afilhadas que criava. Os pretos da Isabelinha, que a minha mãe dizia que eram mulatos e não pretos, fumavam, bebiam, riam, riam muito, tinham hábitos estranhos. Sobretudo, segundo a menina Isabelinha, eram porcos, gente de outra raça. E agora com aquela família era o nosso mundo que corria perigo. Com o tempo disseminar-se-iam, que aquilo era gente como os coelhos e os ratos, e num futuro muito próximo a nossa raça desapareceria. Reparasse-se em Cristo, na nossa igreja de São Pedro, e na sua cor, loirinho, branco. Olhasse-se a bela imagem da virgem naquela igreja, tão alva. E agora vinha aquela gente estranha que nada tinha a ver com a religião, de que ela era exemplo pela castidade e pela caridade com que criava as duas afilhadas, coitadinhas, que só a tinham a ela. Talvez o maior sucesso na pregação da menina Isabelinha tenha mesmo sido o ódio aos cabo-verdianos, na qual acabou apoiada por muita da vizinhança, tendo aqueles acabado por ir construir as suas barracas mais longe dos olhos da cidade que então era o mundo.

Um dia, quando jogávamos futebol na rua, marquei um golo e atirei-me para o chão, como vira fazer ao Jordão num jogo do Benfica contra o Olimpiacos. Os outros, que também tinham visto aquela comemoração, atiraram-se para cima e constituímos uma espécie de montanha humana, passe o exagero, que éramos todos crianças de escola primária. Ora isto aconteceu perante os olhos da menina Isabelinha que logo narrou publicamente, na rede social que era a rua, que nós, rapazes, não passámos de uma carrada de maricas, o mundo estava perdido, até as crianças pecavam. A minha mãe, informada por outra vizinha do que andava a ser dito, confrontou a menina Isabelinha, disse-lhe que ela não era santa nenhuma e ainda, concluiu, no que a ofendeu bastante, “nem santa, nem virgem”. Não chegou a peixeirada de rua porque a minha mãe me agarrou pela mão e me trouxe para casa. Depois, comigo, quis aproveitar para uma pequena lição cuja moral era “desconfia sempre de uma virgem ofendida. Esconde qualquer coisa”. A história pareceu dar razão à mãe, pois passado pouco tempo soube-se que uma das afilhadas, a que era mais doentinha, roubava as malas dos outros pacientes no consultório do Dr. Ataíde Ferreira, enquanto a mais afoita foi, supostamente, “enganada”, teve uma gravidez precoce, que a obrigou a casar com um filho de um juiz. Passado algum tempo mudámo-nos, não mais soube da menina Isabelinha nem das suas afilhadas, que, veio a saber-se, seriam afinal suas filhas.

A menina Isabelinha tem-me vindo à memória nos últimos tempos. Há uma indignação no ar, tanta gente a vociferar nas redes sociais, que são muito mais do que a rua do antigamente, escandalizadas com o rumo do país, que é o mundo. A muita desta gente até lhes consigo adivinhar as mãos à cintura, naquele gesto tão menina Isabelinha. A alguns escuto-lhes a frase derradeira, profética "Isto precisava era de outra ditadura!", como se a ditadura trouxesse o velho éden, como se a felicidade dependesse do fim dos outros, justificação afinal para o genocídio. Assiste-se, nestes tempos, nestas redes sociais que já não são a rua, ao regresso das meninas Isabelinhas. Guardiões da moral que veem pecado em todo o lado. Eles, amostras derradeiras de integridade, muito machos e viris, armam-se em heróis de posts contra o pecado que por aí grassa, assim à maneira do que fazia a menina Isabelinha: por todo o lado espreita a maldade, quer no poder, onde se andam a empanturrar em hambúrgueres às nossas custas, quer, sobretudo, nos estranhos mais pobres do que nós. É o tempo das virgens escandalizadas.

 

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