A "A das Artes" fechou.


A A das Artes fechou.

Conheci a A das Artes em 2007. Tinha acabado de lançar, em edição de autor, o Como se de uma fábula se tratasse. Falei com o Joaquim Gonçalves e fizemos uma apresentação. Desde o primeiro momento me encantou a A das Artes. Não pelo espaço, o natural e sempre belo espaço de uma livraria, mas pela devoção do livreiro, a sua simpatia, o entusiasmo com que falava dos livros. Cedo percebi que a A das Artes era um templo em Sines. Regressei algumas vezes, como cliente e autor, sempre encantado com a livraria e o Joaquim. Deu-me a conhecer vários escritores de língua portuguesa, o que bastaria para lhe estar eternamente grato. A livraria/templo de que falo foi várias vezes distinguida como “a melhor livraria do país”, numa votação da APEL. De nada serviram tais honrarias. Agora, a A das Artes encerrou. Na verdade, há anos que só o amor aos livros do Joaquim a mantinha aberta. Dir-me-ão: pois, os tempos, é inevitável. Assim será, as grandes superfícies, os livros usados vendidos nas plataformas ao preço da uva mijona (ai, e quando deixarem de os vender, aí será pior sinal), os livros digitais, a desvalorização do livro-objeto. Mas não deixa de me provocar uma enorme tristeza, um bocado do mundo que se perde, uma luz natural que se vai apagando, acaso substituída por uma luminária modernaça.

A Narrativa fechou.

Também neste mês soube do encerramento da Narrativa, a minha editora atual (já é a segunda que levo à falência). Uma pequena editora, personalizada, situada fora dos centros urbanos. O André Andraus, meu editor e amigo, é um homem com amor aos livros. Um profundo amor pela literatura, tal como o Joaquim. Os dois lutaram estoicamente por esse amor, penaram, perderam dinheiro, mas engrandeceram as letras nacionais, que a literatura muito deve a estes heróis quase anónimos que a divulgam e engrandecem junto da gente pequenina como eu (não, julgo que não é por ter sido bafejado por esse amor aos livros destes homens que o digo).  O que levou ao fim da Narrativa é o mesmo que levou ao fim da “A das Artes”, sendo a questão essencial o triunfo dos grandes grupos que controlam a edição e a venda (e mesmo estes, dizem-me, enfrentam problemas, que terá de ser assim, o mercado é pequeno e tal, mal há espaço para nós). Só há espaço para os grandes. Na verdade, um reflexo do que vai no mundo, esta tirania dos imensamente grandes, que controlam todo o mercado, tirania que não se discute, perdendo-se tempo com os ódios ao estrangeiro, a maledicência, a conversa taberneira, as mãos à cintura, o dedinho apontado a este e àquele, uma gritaria, mas sempre evitando o cerne da questão: e os pequeninos?

Há alguns anos, por altura do 25 de Abril, discutia num painel com os meus amigos Vítor Encarnação, Carmo Machado e Francisco do Ó Pacheco e dizia que já ninguém se preocupava com os livros, pelo que tínhamos toda a liberdade. Tal decorria de não terem já influência sobre o mundo, ninguém nos ligar, os livros deixaram de ter importância, tirando os sagrados.  Já não se fazem fogueiras, dava esse exemplo, já não há censura e perseguições, pelo menos cá no ocidente, que o Salmon Rushdie por certo discorda do que estou a afirmar. Isto aconteceu há não muito tempo, em 2016, diz-me a net. Parecerá que estes encerramentos me dão razão.

Mas eis que, afinal, ainda há quem tenha medo, vejam-se os ataques que foram perpetrados no último ano por grupos de extrema-direita e que tiveram como alvo o lançamento de livros. E isto no nosso país de brandos costumes. É essa a luzinha que ainda arde cá dentro. Mesmo com estes encerramentos, as falências, pode ser que, afinal, pelo intimismo da literatura, pela vontadinha dos heróis quase anónimos em que também muitos escritores se vão transformando, os livros ainda sejam suficientemente perigosos para ajudar a combater este mundo distópico que se avizinha. Assim seja.


(foto retirada do FB da A das Artes)


Comentários

  1. Não fazia ideia que também a editora Narrativa iria fechar :(

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  2. Grato, Fernando, pelo artigo e, sobretudo, pelo que te motivou a escrevê-lo. Ninguém cresce sozinho. E foi bonita a parceria que, in illo tempore, tivemos. Aprendemos uns com os outros. O fim, porém, é srmpre estranho. Nota final: em França, por exemplo, não acontece o que se passa neste país one pululam políticos incultos, oportunistas e traidores do Povo.
    Abraço solidário à Sofia e ao André. Saúde!

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